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… do Recruta Zero

Ainda sou do tempo em que ao entrar numa papelaria podia encontrar um sem número de revistas de Banda Desenhada, que iam desde os Super-Heróis da Marvel e da DC, às revistas da Disney passando por um sem número de personagens de onde se destacava um tropa preguiçoso, o Recruta
Zero
. Sempre que tinha direito ao troco do Pão, este era um dos meus alvos predilectos quer fosse a revista normal quer fosse os seus Almanaques ou Super Almanaques da editora Brasileira RGE (Rio Gráfica Editora).

Recruta Zero (Beetle Bailey) foi criado na década de 50, mais precisamente a 4 de Setembro de 1950, por Mort Walker e faz parte da elite de tiras de jornais que ainda
hoje é produzida pelo seu criador original. Na tira original podíamos ver as aventuras de uma fraternidade de estudantes, mas devido ao pouco interesse do público, Mort fez com que a personagem se alistasse no exército a 13 de Março de 1951. Aí conseguiu um universo maior com o qual podia trabalhar, baseando-se um pouco na sua própria experiência militar de quando esteve num quartel.
 
A tira beneficiou do conflito militar que decorria na Coreia, começando a ser um sucesso absoluto quer entre os militares (em especial os de baixa patente), quer no público em geral que se divertia com aquele soldado calão e indisciplinado que levava à loucura o seu Sargento de instrução. Apesar do bom humor da tira, começaram a aparecer alguns problemas com as altas patentes militares que viam nela um mau exemplo e uma afronta a toda a operação militar e levaram o autor a encontrar ainda mais piadas utilizando a tacanhez de alguns superiores militares mas tendo o cuidado de manter aquilo tudo no universo imaginário do Quartel Swampy.
 
Para além das revistas, um dia apercebi-me que a RTP também dava os Desenhos Animados desta personagem. O problema é que não era algo certo, por norma eram daqueles típicos tapa buracos entre programas quando já não havia mais anúncios por transmitir.
 
A produção estava a cargo da King Features Syndicate, sendo transmitidos pela primeira vez em 1963 e ao todo foram feitos 50 episódios que apesar de não terem a mesma graça que as revistas, divertiam-me bastante e a dobragem Brasileira ajudava à coisa dando ao programa uma dose de loucura que se assemelhava ao espírito das tiras.
Felizmente que todas as revistas da RGE chegavam a Portugal, a década de 80 era fértil na importação das revistas e essa editora não era excepção. Os meus preferidos eram os Superalmanaques, eles alternavam tiras clássicas, ou não tão clássicas, com histórias soltas e em algumas ocasiões uma linha de histórias em sequência que dava nome ao Superalmanaque, como no caso de um dedicado ao Supersargento ou outro dedicado a todos os membros do Quartel se transformarem em monstros do Halloween.
 
Uma das minhas histórias preferidas é aquela onde todo o Quartel vira Asa Branca e mostra uma paródia à novela de sucesso, Roque Santeiro. Assim como nas revistas da Disney, também estas tinham histórias feitas por artistas Brasileiros que tinham por vezes mais qualidade que algumas originais. Ver o Tenente Escovinha como Mocinha ou o Cuca como Viúva Porcina foi impagável, Roque Swampeiro foi mesmo um dos melhores momentos desta revista.
 
O número de personagens da tira foi crescendo ao longo dos anos, e dando em algumas ocasiões destaque à abertura do próprio exército a todos os sectores da sociedade, começámos a ver elementos Negros, Mulheres, Coreanos e tantos outros que foram tendo o seu lugar neste peculiar Quartel. Vamos conhecer um pouco melhor os integrantes:
 
Zero
(“Beetle Bailey”)
: Recruta preguiçoso e indolente, está sempre à procura de formas de fugir do trabalho. Está sempre com boné ou capacete cobrindo os olhos e em constante conflito com o Tainha. Uma das minhas tiras favoritas, e que o representa na perfeição, mostra uma discussão entre ele e o Sargento Tainha que o acusa de ser preguiçoso e acaba com ele deitado encostado a uma árvore mesmo nas barbas do sargento e continuando a discussão.
 
Sargento
Tainha (Sgt. Orville Snorkel)
: Um brutamontes sem jeito com as
mulheres, guloso e solitário, que age sempre de uma forma hostil com
os seus soldados mas adora o seu cão Oto. Adorava como o retratavam
com as mulheres, ficando completamente gagá.
 
Oto
(Otto)
: É o cão do Sargento Tainha (Sgt. Orville Snorkel). Originalmente, Mort Walker retratou o cãozinho como um cachorro comum, para depois desenhá-lo com o mesmo uniforme de seu dono, além de ter a mesma cara.
 
Platão
(Plato)
: É o intelectual da trupe. Sempre com citações de livros e fala sempre como se estivesse apresentando uma tese de doutorado.
 
Dentinho
(Zero)
: O oposto do Platão. Dentinho é um personagem, digamos, limitado intelectualmente, e seu nome é uma ironia a dois de seus
dentes crescidos. Adorava quando o Tainha o ordenava para algum trabalho já que a asneira era certa e garantida.
Cosme
(Cosmo)
: Faz um comércio informal em seu “cantinho do Cosme”, onde vende de tudo; este personagem foi quase esquecido nos anos 80. Era conhecido pelas suas jogatanas onde nunca perdia.
 
Roque
(Rocky)
: O típico revoltado. Administra o jornal clandestino do
quartel, e se mobiliza por qualquer causa atual.
 
Quindim
(Killer)
: Faz as vezes de mulherengo e galanteador dentro do quartel Swampy. Nem sempre tem sucesso (em geral, uma em cada cinqüenta de suas cantadas dá certo), é o principal amigo de Zero.
 
Cuca
(Cookie)
: É o cozinheiro do quartel Swampy, reputado por sua
incrível capacidade de tirar o apetite de todos com as suas “iguarias”. Inicialmente retratado com um quepe de caserna, ganhou um chapéu de mestre-cuca, para facilitar a identificação. Trabalha sempre com um cigarro na boca (em 1989, o personagem aboliu de vez o hábito de fumar).
 
Tenente
Escovinha (Lieutenant Fuzz)
: trata-se de um oficial caprichoso e
imaturo, sempre reclamando que nunca é promovido. Eterno puxa-saco do General Dureza, constantemente tem chiliques infantis e vive implicando com o jeito grosseirão do Sgto. Tainha. As minhas discussões preferidas envolviam o barulho que a cadeira do Taínha fazia.
 
Tenente
Mironga (Lieutenant Flap)
: Embora não apareça com freqüência
nas tiras, leva a honra de ser o primeiro personagem negro a ser
retratado em quadrinhos norte-americanos, em 1970, e a sua marca
registrada é o eterno cabelo black power.
 
Capitão
Durindana (Captain Scabbard)
: É um sujeito tímido e de raros
melindres, sempre disposto a ouvir as reclamações dos subordinados,
em especial do Zero e de outros soldados rasos.
 
General
Dureza (General Amos Halftrack)
: O típico mau líder. Pensa mais no golfe que na administração do quartel. Como se não bastasse, tem problemas de alcoolismo (toma muitos Martinis) e obedece cegamente à sua mulher, Martha. Vive com esperanças de receber uma carta do Pentágono, que sequer lembra-se da existência deste
quartel.
Martha
(Martha Halftrack)
: A esposa do General Dureza que o trata abaixo
de cão e o mantém na linha com o tolo da massa.
 
Major
Batalha ou Peroba (Major Greenbrass)
: companheiro inseparável do General Dureza no golfe e no Clube dos Oficiais, onde ambos batem ponto após o expediente para beber.
 
Srta.
(ou Dona) Tetê (Miss Buxley)
: A típica secretária “boa”, sempre representada com um vestido preto. É o objecto de desejo de soldados e oficiais dentro do quartel, mas também é a típica “loura burra”, bem menos competente que sua colega Blips.
 
Soldado
Blips (Miss Blips)
: É a competente secretária militar do General Dureza, sempre desprezada por não ter os atributos físicos de Srta. Tetê.
 
Júlio
(Julius)
: Chofer gordinho do General Dureza, conhecido como o
“queridinho da mamãe”.
 
Capelão
(Chaplain Staneglass)
: Sempre com um bom conselho aos militares.
 
Cabo
Ky (Corporal Yo)
: Introduzido em 1990, é o primeiro oriental desta tirinha.
 
Dr.
Esculápio
: Médico do quartel, meio amalucado.
 
Dr.
Bonkus:
 O psicólogo do quartel.
 
Sargento
Louise Lorota (Sgt. Louise Lugg)
: introduzida na tirinha em 1986, ela quer ser a namorada do Sargento Tainha.
 
Bella:
a gata angorá de estimação da Louise.
 
Bunny:
a namorada do Zero, raramente vista na tirinha.
 
A revista era já um clássico das nossas papelarias e continuou a vir para cá mesmo quando a RGE virou Globo ou quando a Editora Abril pegou na personagem. Infelizmente deixou de ser comum haver este intercâmbio entre os dois Países e deixámos de ter estas revistas à venda apesar de ainda continuar a ser editado no Brasil. Como em todas as tiras, o humor tem os seus altos e baixos, mas no geral continua a ser uma tira bastante engraçada mesmo que repita situações até ao extremo como o Sargento Tainha preso a um ramo de uma árvore com medo de cair.

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